Monday, March 24, 2014







“(…) And again I believe that we don’t really lose anything that is important. We only deceive ourselves, thinking that we own things, the instants, the others. Along with me go all the dead people I loved, every friend that step away, every happy days meanwhile gone. I didn't lose anything, only the illusion that everything could be mine forever.”


*Miguel Sousa Tavares ("roubartilhado" da minha Sis!)


Saturday, August 10, 2013





Espero alguém que ponha bilhetinhos dentro daqueles livros que vou ler até o fim.
Espero alguém que se arrependa rápido de suas grosserias e me perdoe sem querer.
Espero alguém que me avise que estou repetindo a roupa na semana.
Espero alguém que nunca abandone a conversa quando não sei mais falar.
Espero alguém que, nos jantares entre os amigos, dispute comigo para contar primeiro como nos conhecemos.
Espero alguém que goste de dirigir para nos revezarmos em longas viagens.
Espero alguém disposto a conferir se a porta está fechada e o café desligado, se meu rosto está aborrecido ou esperançoso.
Espero alguém que prove que amar não é contrato, que o amor não termina com nossos erros.
Espero alguém que não se irrite com a minha ansiedade.
Espero alguém que possa criar toda uma linguagem cifrada para que ninguém nos recrimine.
Espero alguém que arrume ingressos de teatro de repente, que me sequestre ao cinema, que cheire meu corpo suado como se ainda fosse perfume.
Espero alguém que não largue as mãos dadas nem para coçar o rosto.
Espero alguém que me olhe demoradamente quando estou distraído, que me telefone para narrar como foi seu dia.
Espero alguém que procure um espaço acolchoado em meu peito.
Espero alguém que minta que cozinha e só diga a verdade depois que comi.
Espero alguém que leia uma notícia, veja que haverá um show de minha banda predileta, e corra para me adiantar por e-mail.
Espero alguém que ame meus filhos como se estivesse reencontrando minha infância e adolescência fora de mim.
Espero alguém que fique me chamando para dormir, que fique me chamando para despertar, que não precise me chamar para amar.
Espero alguém com uma vocação pela metade, uma frustração antiga, um desejo de ser algo que não se cumpriu, uma melancolia discreta, para nunca ser prepotente.
Espero alguém que tenha uma risada tão bonita que terei sempre vontade de ser engraçado.
Espero alguém que comente sua dor com respeito e ouça minha dor com interesse.
Espero alguém que prepare minha festa de aniversário em segredo e crie conspiração dos amigos para me ajudar.
Espero alguém que pinte o muro onde passo, que não se perturbe com o que as pessoas pensam a nosso respeito.
Espero alguém que vire cínico no desespero e doce na tristeza.
Espero alguém que curta o domingo em casa, acordar tarde e andar de chinelos, e que me pergunte o tempo antes de olhar para as janelas.
Espero alguém que me ensine a me amar porque a separação apenas vem me ensinando a me destruir.
Espero alguém que tenha pressa de mim, eternidade de mim, que chegue logo, que apareça hoje, que largue o casaco no sofá e não seja educado a ponto de estendê-lo no cabide.
Espero encontrar um homem que me torne novamente necessária.


 

*Do livro "Espero Alguém" (Bertrand Brasil, 2013) * adaptado




Sunday, June 09, 2013


Simplesmente aconteceu
Não tem mais você e eu
No jardim dos sonhos
No primeiro raio de luar
Simplesmente amanheceu
Tudo volta a ser só eu

Nos espelhos
Nas paredes de qualquer lugar
Não tem segredo
Não tenha medo de querer voltar
A culpa é minha eu tenho vício de me machucar

De me machucar


Lentamente aconteceu
Seu olhar largou do meu
Sem destino

Sem caminho certo pra voltar
Não tem segredo
Não tenha medo de querer voltar
A culpa é minha eu tenho vício de me machucar

De me machucar
(...)
 
*Ana Carolina


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Tuesday, February 26, 2013

Vou sentir falta...



...de quando nós duas éramos apenas uma;

...de ser elogiada todo dia;
...de sentir minha barriga mexer;
...de ganhar comida de presente;
...de tomar dois sorvetes sem culpa;
...de chamar a atenção de todos com meu barrigão;
...de ser bajulada o tempo todo;
...de escutar meu som favorito: a batida do teu coraçãozinho;
...de esperar ansiosa pelas ultras e ecografias;
...de ser chamada de barriguda e ficar feliz;
...de ler mil artigos sobre o mesmo assunto: a gravidez;
...de ficar curiosa imaginando como será seu rostinho e com quem será parecida;
...de desdobrar suas roupinhas e guardar todas de novo;
...de fazer xixi a cada hora, inclusive de madrugada;
...de me sentir cansada, com dor nas costas e nas costelas;
...de me pesar e ficar feliz com cada quilinho a mais;
 

Vou ter muitas saudades do meu barrigão, mas essa falta será compensada...pois você, minha estrelinha, vai estar aqui comigo...toda hora, todo dia

 

Sunday, December 02, 2012





O mundo em silêncio e, em algum lugar, tua carne ainda ocupa o centro de mim, teu nome se reveza entre meus olhos e minha boca, sem que eu saiba que forma ele finalmente terá. Tem garras, o teu nome. Tem também um sumo que arde quando escala a garganta e me põe essa dor paralisante nas mãos. O pior em cada coisa é não saber se ensurdeceste à minha voz, o pior em tudo é pressentir que estás desertando de mim e que tudo seca, tudo murcha e se despetala em ausência. Sou o retrato bruto da dor, aqui posta de braços abertos à espera dos teus olhos. Sou eu mesma a dor refundada, delicadamente urdida sobre uma frágil tecitura de memória, imóvel e dócil, como só a tristeza pode compor ao corpo. Espero ínfima, mansa e imolada inseta na teia pela tua fome, ou teu abandono.


*Patrícia Antoniette



Sunday, October 14, 2012






Dispo-me da poeira dos caminhos que me trouxeram até aqui. Folhas caídas, saudades largadas num canto e beijos de borboleta são as memórias que trago da viagem insone.
As janelas, dexo-as abertas para que entrem o sol e o vento e as flores com que me presenteia a árvore vizinha.
(...)
Eles, como eu, não sabem o que dizer. Passeiam vagos entre nuvens num céu de aurora e adeus.
Eu teimo em ficar.
Por isso sigo. 


*Daise Ribeiro

Thursday, June 14, 2012






(...)

Se o mundo é mesmo parecido com o que vejo
Prefiro acreditar no mundo do meu jeito
E você estava esperando voar
Mas como chegar até as nuvens
Com os pés no chão...

O que sinto muitas vezes faz sentido e outras vezes
Não descubro um motivo que me explique
porque é
que não consigo ver sentido no que sinto,
que procuro
o que desejo e o que faz parte
Do meu mundo...

O arco-íris tem sete cores
E fui juiz supremo
Vai, vem embora, volta
Todos têm, todos têm
Suas próprias razões...

Qual foi a semente que você plantou?
Tudo acontece ao mesmo tempo
Nem eu mesmo sei direito
O que está acontecendo
E daí, de hoje em diante
Todo dia vai ser
O dia mais importante...

(...)

Não digo nada
Espero o vendaval passar
Por enquanto eu não sei
O que você me falou
Me fez rir e pensar
Porque estou tão preocupado
Por estar tão preocupado assim...

Mesmo se eu cantasse todas as canções
Todas as canções do mundo
Sou bicho do mato...

Mas se você quiser alguém
Prá ser só seu
É só não se esquecer
Eu estarei aqui...

Ou então não terás jamais
A chave do meu coração...


*Legião Urbana




Thursday, May 17, 2012

Clave de Sol



Faz música pra mim e coloca em envelopes fechados por língua morna. Faz versos nas costas da lua. Dedilha nossos desafinos. Na areia da praia anoitecida, deita minha ausência e colhe os ruídos. Oferece na concha das mãos. Segredos. Canta baixinho e grita desespero para abafar o silêncio das pausas. Desatina mariposa, asas de procura nos meus olhos acesos. Desenha em ponta de agulha sobre a pele e assina o nome por baixo. Criptografia. Espera. Até ouvir meu riso com gosto de maçã a provocar cócegas na saudade. Ele faz música e promessas bordadas em gaze. Eu sangro.

 

*Ane Aguirre




Monday, March 26, 2012



"...e tudo se torna tão simples
tão facil de sentir
de falar, de ver,
simplesmente, porque te amo."




Érica do Vale




Thursday, March 08, 2012

Aviso da lua que menstrua



Moço, cuidado com ela!
Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...
Imagine uma cachoeira às avessas:
cada ato que faz, o corpo confessa.
Cuidado, moço
às vezes parece erva, parece hera
cuidado com essa gente que gera
essa gente que se metamorfoseia
metade legível, metade sereia.
Barriga cresce, explode humanidades
e ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
mas é outro lugar, aí é que está:
cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita..
Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente
que vai cair no mesmo planeta panela.
Cuidado com cada letra que manda pra ela!
Tá acostumada a viver por dentro,
transforma fato em elemento
a tudo refoga, ferve, frita
ainda sangra tudo no próximo mês.
Cuidado moço, quando cê pensa que escapou
é que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga
é que tô falando na "vera"
conheço cada uma, além de ser uma delas.
Você que saiu da fresta dela
delicada força quando voltar a ela.
Não vá sem ser convidado
ou sem os devidos cortejos..
Às vezes pela ponte de um beijo
já se alcança a "cidade secreta"
a Atlântida perdida.
Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas
cai na condição de ser displicente
diante da própria serpente
Ela é uma cobra de avental
Não despreze a meditação doméstica
É da poeira do cotidiano
que a mulher extrai filosofando
cozinhando, costurando e você chega com a mão no bolso
julgando a arte do almoço: Eca!...
Você que não sabe onde está sua cueca?
Ah, meu cão desejado
tão preocupado em rosnar, ladrar e latir
então esquece de morder devagar
esquece de saber curtir, dividir.
E aí quando quer agredir
chama de vaca e galinha.
São duas dignas vizinhas do mundo daqui!
O que você tem pra falar de vaca?
O que você tem eu vou dizer e não se queixe:
VACA é sua mãe. De leite.
Vaca e galinha...
ora, não ofende. Enaltece, elogia:
comparando rainha com rainha
óvulo, ovo e leite
pensando que está agredindo
que tá falando palavrão imundo.
Tá, não, homem.
Tá citando o princípio do mundo!

*Elisa Lucinda

Friday, February 10, 2012




Foi quando tu chegaste que descobri meu solo e minha pátria, que deixei o exílio e dei um nome à terra de que sou feita. Porque tu tens uns olhos que se perderam no mar e voltaram depois das tempestades com a dor de quem mais uma vez pôde ser salvo. Porque teus braços me resgataram, neles desfiz minhas fronteiras e me tornei contigo um mesmo horizonte que junta infinitos de céu e água. Porque tua voz me conta coisas outras enquanto falas e tu sabes o que eu ouço e não temes que eu saiba sobre todos os teus medos. Porque tu dizes meu nome de olhos fechados, afundado em minha carne e a noite toda lateja dentro de mim e o ruído do mundo cessa para que eu possa me lembrar só da tua voz dizendo o meu nome longe de todas as coisas. Porque tuas mãos falam a língua da minha pele e enfeitam meus cabelos de pequenas conchas e musgos para que eu encontre os sentidos que eu supunha naufragados para sempre. Porque eu já não poderia me entregar a mais ninguém sem voltar a ser estrangeira em mim mesma, sem ser de novo uma estranha atrás de meus próprios olhos, sem desertar para sempre do meu corpo.

*Ticcia

Sunday, November 20, 2011


A vida chega em silêncio: desenovela reflexos, interroga a esfinge que responde ou nega num espelho baço. (A resposta nunca é clara nem é pequena.) Não é a mim que vejo: é ao outro, num misto de incerteza e esperança de que não seja mais um rosto virado, uma boca cerrada - mais um desgosto a cada passo. Desejo,sonho e medo, o amor é salto sem rede entre a razão e a magia. (E só assim vale a pena.)

*Lya Luft

Thursday, August 18, 2011

Nosso soar


Eu amo se me deitas e de súbito beijas
Os mais íntimos segredos meus;
Quando cola nos meus lábios os teus
E recebes meus gemidos sufocantes
E os bebe garganta a fundo
Como o mais puro dos pecados
(....)
Eu amo nossos corpos entrelaçados,
Nossos movimentos ritmados
Na medida que finda nossa respiração
Selvagens, doces, mistos, alados
(....)
Eu amo dormir e acordar ao teu lado
Por cima de ti, meu território sagrado,
Onde posso esmorecer ou libertar-me
Esperando o abrir claro de teus olhos
(...)
Eu amo quando fazemos amor
Mesmo quando o fazemos calados
No silêncio que só nossa entrega conhece
Onde o que precisa ser dito acontece
No soar do teu corpo e do meu.



* Cáh Morandi

Monday, July 04, 2011

Lembrete

  



Não deixe portas entreabertas
Escancare-as
Ou bata-as de vez.
Pelos vãos, brechas e fendas
Passam apenas semiventos,
Meias verdades
E muita insensatez.




*Flora Figueiredo





Thursday, April 21, 2011




"Então a suspeita bruta: não suportamos aquilo ou aqueles

que poderiam nos tornar mais felizes e menos sós (...)

Não, não suportamos essa doçura(...)

Doeria mais tarde, quem sabe, de maneira insensata

e ilusória como doem as perdas para sempre perdidas,

e portanto irremediáveis,

transformadas em memórias iguais pequenos paraísos-perdidos.

Que talvez, pensava agora, nem tivessem sido tão paradisíacos assim (...)”



*Caio Fernando de Abreu