Sunday, May 02, 2010



Faço-me no sentir e busco sentido a tudo o que não compreendi. Não foi por falta de atenção, talvez um cansaço leve, talvez uma pouca disposição que hoje me cobra.
De pedras e barro construí uma morada que já se fez forte, já se fez fraca, mas resiste - ao tempo e a mim.
Carrego umas lembranças e água para a viagem, que parece longa - assim espero seja,
mas o que levo de mais precioso
são as memórias de uma mão cheia de carinho.


*Daise Ribeiro

Tuesday, April 13, 2010

"Querer sem saber, e ter sem poder, a injunção de um sofrer, que transborda das mãos de quem procura o seu reflexo, na superfície de um qualquer lago, e não se vê, porque se sabe encontrado numa outra alma, onde a ternura perdura pelo infinito da eternidade, e a doçura escorre por entre os dedos. Livre-arbítrio ou imposição de forças que não se vêem, sentem-se, para lá da pele, dos sentidos e das sensações, que a atração sobrenatural não proíbe, magias e feitiços de um mago, alquimista ou feiticeiro, derramados e transformados em doce Amor, e imediatamente em amarga saudade. Antagonismos e venturas de uma vida, perdida na procura de uma felicidade momentânea, um instante, um ensejo errante, uma viagem aos primórdios do tempo, num relâmpago surdo por memórias a apagar, numa futurologia nula, sem pernas para andar, porque desde o início, fez parte do passado."



*Do blog Outra parte de mim

Saturday, April 10, 2010



Vieste como um barco carregado de vento, abrindo
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste
o tempo de iludires a arquitetura fria do estaleiro

onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,
se partiste, que dentro de mim se acanham as certezas e
tu vais sempre ardendo, embora como um lume de cera,
lento e brando, que já não derrama calor.

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha:
o frio do horizonte começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo o vaivém
dos barcos.

Dizem-me os seus passos que vale a pena esperar,
porque as ondas acabam sempre por quebrar-se junto das margens.
Mas eu sei que o meu mar está cercado de litorais,
que é tarde para quase tudo.
Por isso, vou para casa e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.



*Maria do Rosário Pedreira

Friday, February 19, 2010

 

"Escancarado é o teu sorriso
Que traz um coração ao fundo.

Contagia sonhos e corpos,
Morde lábios, lambe mundos...

Principalmente o meu."
 
*Chris Herrmann

Tuesday, January 05, 2010




Eu não juro nada
por coisa alguma,
pois que todo caminho é incerteza.
A ordem se desarruma,
a história se desajeita,
o arranjo troca de lado e vira a mesa.
Tampouco prometo.
Nesse jogo de regras e tratos,
rolam os dados,
mudam os fatos,
num ciclone célere, inclemente.
Só o que posso é me entregar completamente
a toda causa que me dedicar,
a cada tempo que eu puder viver,
a cada amor que me fizer amar.

*Flora Figueiredo

Tuesday, December 29, 2009



- Vou-me embora hoje.
Ele olhou-a demoradamente, como quem não quer perder nada.
- Não te despedes de mim?
Ele continou a olhá-la, sem dizer palavra. O que dizer quando o coração nega a partida?
- Vou levar-te comigo na alma.
Ele então chorou. E quis partir com ela, escondido no fundo dos seus brincos ou nas palmas das suas mãos.
- Adoro quando brincas com os meus dedos. Parece que queimam, que me inflamo ao teu toque.
E ele brincou mais uma vez. Como se fosse a última. E era mesmo.


*Autoria desconhecida

Wednesday, December 23, 2009



"Não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma?

Ah, passa devagar a tua mão na minha cabeça, toca meu coração com teus dedos frios, eu tive tanto amor um dia..."


*Caio F. Abreu


Wednesday, November 25, 2009




Chegaste
com tua tesoura de jardineiro
e começaste a cortar:
uma folhas aqui e ali
uns ramos...

Eu estava desprevenida
quando arrancaste a raiz.



*Ivette Centeno

Monday, November 16, 2009




Encontrei um verso fraturado,

caído na esquina da rua do lado,

Tinha se perdido de um coração saudoso

que passava por ali, desiludido.

Coloquei-o de pé,
emendei seus pedaços,
refiz suas linhas,
retoquei seus traços.
Afaguei suas dores como se fossem minhas.

Agora, novamente estruturado,
espero que ele não olhe para trás

e não misture sonhos
com amargas falências do passado;
que saiba enfeitar a estrela lá na frente

com fartos laços de rima colorida.
... pois é para o futuro que caminham
todos os passos apressados desta vida.




*Flora Figueiredo

Tuesday, November 03, 2009


Invocação ao amor

Pedir-te a sensação
a água
o travo

aquele odor antigo
de uma parede
branca

Pedir-te da vertigem
a certeza
que tens nos olhos quando
me desejas

Pedir-te
sobre a mão
a boca inchada
um rasto de saliva
na garganta

pedir-te que me dispas
e me deites
de borco e os meus seios
na tua cara

Pedir-te que me olhes e me aceites
me percorras
me invadas
me pressintas

Pedir-te que me peças
que te queira
no separar das horas
sobre a língua

Meu ciúme
meu perfil
minha fome

meu sossego
minha paz
minha aventura

Meu sabor
minha avidez
saciedade

minha noite
minha angústia
meu costume


*Maria Teresa Horta

Saturday, October 17, 2009


Memories, pressed between the pages of my mind
Memories, sweetened thru the ages just like wine
Quiet thought come floating down
And settle softly to the ground
Like golden autumn leaves around my feet
I touched them and they burst apart with sweet memories,
Sweet memories
Of holding hands and red bouquets
And twilight trimmed in purple haze
And laughing eyes and simple ways
And quiet nights and gentle days with you
Memories, pressed between the pages of my mind
Memories, sweetened thru the ages just like wine,
Memories, memories, sweet memories


*
Samarony, você estará sempre nas nossas memórias e em nossos corações.

Thursday, October 08, 2009

"Eu vou te contar porque você não me conhece. E eu tenho que gritar isso, porque você está surdo e não me ouve. A sedução me escraviza a você, ao fim de tudo você permanece comigo, mas preso ao que eu criei e não à mim. E quanto mais falo sobre uma verdade inteira, um abismo maior nos separa. Você não tem um nome, eu tenho, você é um rosto na multidão e eu sou o centro das atenções. Mas a mentira da aparência do que eu sou é a mentira da aparência do que você é. Porque eu, eu não sou o meu nome e você não é ninguém. O jogo é perigoso que eu pratico aqui. Ele busca chegar ao limite possível de aproximação. Através da aceitação da distância e do reconhecimento dela. Entre mim e você existe a notícia, eu me dispo da notícia e a minha nudez parada te denuncia e espelha. Eu me relato, tu me delatas, eu vos acuso e confesso por nós.
Só assim me livro das palavras com as quais você me veste."

Sunday, September 27, 2009

SUBIDA



Quando o dia acorda atravessado, escalo uma montanha.

É meu próprio caminho em direção ao sol.

Mochila nas costas, carrego o principal não levo nem perguntas, nem respostas.

Ponho um ramo de sonhos que vou plantando pelo caminho, a flauta encantada pra seduzir passarinho, a estrela companheira que brilha o tempo inteiro e mantém a trilha iluminada;
um frasco de água benta, uma reza certeira; um arco-íris à prova de vento, um peito aberto à prova de nada.

Devagarinho, sem pressionar o tempo, chego ao meu destino.

Respiro fundo, abro os braços, canto um hino de sagração ao mundo - e agradeço - por ter descoberto de repente por onde se começa um recomeço.


*Flora Figueiredo

Wednesday, September 23, 2009

Naufraguei entre dois fôlegos

de um tempo

em que respirar-te era um bálsamo.




São instantes, as felicidades virgens.

São saudades, são queixumes,

são escolhas lançadas de um barco

que não alcançam o vento nem o sal da minha fé.



*cferreirapedro (Os ácaros do meu armário)

Tuesday, September 22, 2009

Voltas em volta dos contratos de Amor




Nos contratos que tu lavras
não vi, Amor, valimento.
Só palavras e palavras
feitas de sonho e de vento.

Primeira volta: lavrar.
Lavra o amor algum contrato?
Lavra, sim, mas como ato
de grassar, de incendiar.
Lavrar? Melhor - celebrar.
Se há bona fide e paixão
no ato da celebração,
há muito mais que palavras
nos contratos que tu lavras,
há um sol na solidão.

Volta dois: da validade.
O amor, o amar vale a pena
se a pessoa não é pequena.
Seu prazo é a sua verdade:
um dia? a eternidade?
Seja intenso, seja infindo
enquanto dure, indo e vindo.
Diz o mote em desalento:
- não vi, Amor, valimento,
mas eu vi e vale e é lindo.
Terceira volta: o objeto
desses contratos de Amor
há de ser somente o amor
seja ele aberto ou secreto.
Mas que seja o Amor, completo
em sua frágil plenitude.
Ah, Amor, que só amor mude
os contratos que apalavras.
Só palavras e palavras
amor não é, amiúde.

Que esta quarta volta abrace
a palavra. Que a não leve
o vento. Que a verdade a eleve
em seu altar e que a enlace.
O amor fica ainda que passe,
ainda que passe o vento.
Feitas de sonho e de vento?
Palavras do Amor, risonho:
que se são feitas de sonho,
não, não são feitas de vento.



*Pedro Galvão