
Levo-te o mar e as rendas das canoas. Levo-te o chá de ervas que colore as mãos depois do abraço. Levo-te os ombros na véspera do sol. Levo-te a cabeleira de astros e a lareira de grilos. Levo-te a glória do limo e os degraus dentro da estante. Levo-te um rosto surpreso e o gancho da porta para pôr o casaco. Levo-te um pensamento que não foi sentimento. Levo-te o visco mais duro, o céu inconformado, o verde aposentado. Levo-te meu sotaque de praia, meu dialeto de inverno. Levo-te minhas notícias sem jornal, a ambulância da brisa. Levo-te os insetos em frascos e a boca aberta de espanto. Levo-te o ritmo das cartas sendo embaralhadas. Levo-te meu álbum de fotos e as figurinhas repetidas para trocar. Levo-te a conversa de corredor, a porta observada. Levo-te o filho no colo, a carícia dos ouvidos. Levo-te as frutas do pé e a horta do fim da casa. Levo-te as jóias falsas para as pedras disputarem corrida no piso. Levo-te a caridade ainda não descontada, a insatisfação aumentando. Levo-te minhas pernas altivas, meus seios de lado. Levo-te os milagres que não aconteceram, a garrafa de água. Levo-te a renúncia, as gramíneas em caixotes, a colher do violão. Levo-te o medo da escada em caracol, as tampas de vidro dos perfumes. Levo-te meu nome do meio, a escritura do pessegueiro. Levo-te o cheiro da cidade natal, o estojo de linha e agulha. Levo-te o sótão de meus livros, a letra mais arisca. Levo-te meus problemas incomunicáveis. Levo-te a indulgência infantil ao açúcar. Levo-te o animal de estimação de meus cinco anos e sua desaparição repentina. Levo-te o perdão ao teu pai e à mãe, o pomar das gavetas. Levo-te a manhã depois de ter amado à noite. Levo-te a noite depois de ter odiado à tarde. Levo-te areia fora da ampulheta, o resto de música que fica no copo. Levo-te a minha risada, a loucura, o palavrão. Levo-te alguma senha esquecida, algum pente esquecido na bolsa. Levo-te a covardia do salto, a timidez do sutiã. Levo-te a aparência de quem não chegou a tempo. Levo-te a Bíblia marcada com fita de cabelo. Levo-te os mistérios gozosos. Levo-te a salvo o ainda que não abrimos juntos.
*Fabrício Carpinejar (adaptado)













